O Sagrado Feminino: a origem esquecida da força que habita o corpo da mulher
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Antes de existir controle, existia reverência
Houve um tempo em que o feminino não era silenciado — era sagrado.
Antes das estruturas que conhecemos hoje, antes das regras, dos papéis rígidos e das expectativas que moldaram o lugar da mulher na sociedade, existia algo mais profundo: a reverência à vida que nasce, nutre e transforma.
O primeiro elemento cultuado pela humanidade não foi o céu, nem o poder, nem a guerra.
Foi a Terra.
E a Terra era mulher.
Nos mitos mais antigos, ela não precisava de nada além de si mesma. Era uma deusa que se gerava, que se recriava, que fazia brotar da própria carne tudo aquilo que sustenta a vida.
Não havia separação entre corpo, natureza e divino. Havia unidade.
O feminino como origem: entre deusas, mitos e memória ancestral
Ao longo da história, diferentes culturas reconheceram essa força.
Na Grécia antiga, Gaia representava a própria Terra viva. Na tradição hindu, Kali expressava o poder criador e destruidor da existência. Entre os povos celtas, Danu era a grande mãe de todos os deuses.
Essas figuras não eram frágeis, nem submissas. Eram inteiras.
O feminino, nesse contexto, não era apenas biológico — era simbólico, espiritual, cósmico.
E talvez seja por isso que, ainda hoje, tantas mulheres sentem um chamado difícil de explicar: um desejo de retorno a algo que parece ter sido esquecido.
A descida de Inanna: o mito que revela a travessia da mulher
Entre todas as deusas, uma das mais simbólicas é Inanna.
Conhecida como “A Dama dos Céus”, ela carrega em si a complexidade do feminino: amor e guerra, criação e destruição, desejo e sabedoria.
Mas é em um de seus mitos que encontramos uma das metáforas mais profundas sobre o feminino: Inanna decide descer ao submundo.
Para atravessar esse caminho, ela precisa passar por sete portões. Em cada um deles, deixa algo para trás: suas vestes, seus adornos, seus símbolos de poder.
Até chegar completamente nua. Sem títulos. Sem máscaras. Sem proteção.
Esse mito não fala apenas de morte ou renascimento. Ele fala de um processo que muitas mulheres vivem, ainda hoje: o de se despir das expectativas impostas para encontrar quem realmente são.
Matriarcado: entre teoria, mito e apagamento histórico
A ideia de que sociedades antigas poderiam ter sido organizadas a partir do feminino sempre despertou fascínio — e também controvérsia.
Teóricos como Johann Bachofen sugeriram que houve períodos em que as mulheres ocupavam posições centrais, especialmente por sua capacidade de gerar vida.
Mas essa teoria nunca foi consenso. E talvez a pergunta mais importante não seja se existiu ou não um matriarcado, mas o que foi perdido quando o feminino deixou de ser central.
Porque, mesmo sem provas definitivas, há evidências de que mulheres já ocuparam espaços de poder, especialmente na religião, na cultura e na organização social.
Na Mesopotâmia e no Egito, por exemplo, mulheres podiam ser sacerdotisas, governantes e figuras públicas influentes. Esse cenário muda drasticamente em sociedades como a Grécia e Roma, onde o feminino passa a ser restringido ao espaço doméstico.
O que antes era potência, torna-se contenção.
Do sagrado ao silenciamento: o que aconteceu com o feminino
Com o avanço de estruturas patriarcais, o feminino deixou de ser símbolo de poder para se tornar algo a ser controlado.
O corpo da mulher, antes sagrado, passa a ser regulado. Sua voz, antes ritual, passa a ser reduzida. Sua presença, antes central, passa a ser secundária.
E esse movimento não ficou no passado. Ele reverbera até hoje.
Nas exigências, nos padrões, na forma como muitas mulheres ainda se percebem — sempre em função do outro.
O retorno: por que o sagrado feminino volta a emergir
Apesar de tudo, algo permanece. O sagrado feminino não desapareceu. Ele foi silenciado.
E agora, pouco a pouco, começa a retornar. Esse retorno não está necessariamente em rituais ou crenças, mas em movimentos internos.
Feminismo e resgate: não é sobre passado, é sobre consciência
O feminismo, em uma de suas vertentes, busca exatamente isso: resgatar narrativas apagadas. Não para romantizar o passado, mas para compreender o presente.
Entender que o lugar da mulher não é natural — é construído. E, se foi construído, pode ser transformado.
O sagrado feminino não é externo — é interno
Talvez o maior equívoco seja pensar o sagrado feminino como algo distante, mítico ou inacessível.
Ele não está apenas nas deusas. Está na experiência. Na intuição. Na sensibilidade.
O sagrado feminino não é algo que você precisa encontrar. É algo que você precisa lembrar.
Leitura que aprofunda essa reflexão
Uma obra essencial para compreender essa jornada simbólica e emocional é Mulheres que Correm com os Lobos, que explora os arquétipos femininos e o resgate da essência instintiva da mulher, assim como o livro, Quando Deus era mulher , que afirma que, apesar de a cultura matriarcal e matrilinear ter ruído, ela não só perdura como se impõe ao patriarcado e resiste a ele, mostrando-se mais atual do que nunca.
Continue essa reflexão no blog
https://prismagalhaes.blogspot.com/2026/04/violencia-contra-mulher-raizes.html
https://prismagalhaes.blogspot.com/2026/04/como-as-redes-sociais-moldam-saude-mental-ansiedade.html
Um convite final
E se, em vez de buscar fora, você começasse a se perguntar: o que em mim já sabe — mas foi silenciado?
É um espaço de reencontro.
Pris Magalhães
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