Reflexões terapêuticas sobre mães: entre o amor, a culpa e a construção social
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A idealização da maternidade
Há dores que não se nomeiam facilmente.
Entre elas, existe uma que se instala de forma lenta, silenciosa e profundamente desestabilizadora: a dor de uma mãe que dedicou sua vida a formar um homem sensível, justo e respeitoso — e, ainda assim, vê esse mesmo filho crescer e reproduzir o desprezo, a indiferença ou a lógica machista que ela tentou, com tanto esforço, desconstruir.
Essa experiência não nasce do fracasso individual, mas de algo muito mais profundo: estruturas inconscientes, dinâmicas familiares e forças culturais que atravessam o feminino — muitas vezes de forma invisível.
O sintoma que nasce no invisível: a repetição inconsciente
Na clínica, essa cena se repete com frequência: mães que, com angústia, percebem que seus filhos — já adolescentes ou adultos — manifestam comportamentos machistas sutis e persistentes.
Eles interrompem, deslegitimam, exigem cuidado sem reciprocidade, evitam responsabilidades emocionais. Pequenos gestos que, somados, revelam uma estrutura.
A dor, nesse caso, é dupla: é íntima e é política.
E é nesse ponto que surge o abismo.
Mães que sustentam discursos igualitários muitas vezes vivem, na prática, relações onde são silenciadas, sobrecarregadas ou desvalorizadas. O filho observa. E aprende.
Aprende que a mulher cuida — mas não é ouvida.Aprende que a mãe sustenta — mas não é respeitada.
A culpa materna e a ilusão de controle
Diante desse cenário, uma pergunta emerge com força devastadora:
“Onde foi que eu errei?”
Essa pergunta, tão comum nos espaços terapêuticos, carrega uma armadilha.
Ela parte da ideia de que a mãe teria controle absoluto sobre a formação subjetiva do filho — o que, do ponto de vista psicanalítico, é uma ilusão.
Nenhuma mãe educa sozinha.
A subjetividade de um menino é atravessada por múltiplos agentes:
- cultura
- escola
- grupos sociais
- mídia
- redes digitais
- silêncio e postura das figuras paternas
A culpa, nesse contexto, funciona como desvio: desloca o olhar da estrutura para o indivíduo. E, mais uma vez, responsabiliza a mulher.
A omissão paterna e a pedagogia do exemplo
Em muitos lares, há uma contradição silenciosa:
- discurso progressista
- prática desigual
Mesmo sem palavras, o filho compreende que o cuidado é feminino, o poder é masculino.
Essa pedagogia invisível estrutura sua forma de ver o mundo e, com o tempo, transforma-se em comportamento.
O machismo, então, não nasce como escolha consciente — mas como repetição internalizada.
O masculino ferido e a agressividade dirigida à mãe
Sob a ótica junguiana, todo sujeito carrega dimensões femininas e masculinas. Quando um menino cresce em uma cultura que reprime a sensibilidade e valoriza o domínio, ele se afasta de sua dimensão interna mais vulnerável.
Esse rompimento gera tensão, e a tensão, muitas vezes, se transforma em irritação, rejeição, agressividade emocional
A mãe, que representa vínculo, cuidado e sensibilidade, torna-se o alvo mais próximo.
Não por fraqueza — mas por proximidade.
Maternidade, feminismo e o direito ao limite
Existe uma idealização perigosa da mãe feminista: a mulher que tudo suporta, tudo compreende e tudo transforma.
Mas essa figura não existe. A mãe não é responsável por “salvar” o filho do machismo.
Colocar limites é parte do cuidado e isso inclui dizer não, exigir respeito, interromper dinâmicas abusivas e, em casos extremos, se afastar.
Porque há uma verdade difícil, mas necessária: o amor não pode ser sustentado à custa da dignidade.
A dor que precisa ser dita
Educar um filho em uma sociedade machista é um ato de resistência, mas resistir não é aceitar tudo.
Romper o silêncio é o primeiro movimento de cura, não para culpar — mas para compreender.
Filhos não nascem machistas.
Mas podem se tornar.
E mães não devem carregar sozinhas o peso dessa transformação.
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