Feminismo e Psicanálise: Pressão Social, Modismo ou Causa Justa?

  Quando estar forte o tempo todo deixa de ser força e vira exaustão Você já sentiu como se estivesse carregando o mundo nas costas, sem direito a pausa? Como se precisasse estar bem o tempo todo — para os filhos, para o trabalho, para a família, para o mundo — mesmo quando tudo dentro de você está desabando? Se a resposta for sim, talvez seja hora de nomear isso com mais honestidade: não é força. É sobrecarga. Vivemos em uma cultura que incentiva as mulheres a conquistarem tudo — carreira, maternidade, equilíbrio emocional, corpo ideal — mas continua delegando a elas o cuidado invisível da vida cotidiana. E esse acúmulo, silencioso e constante, cobra um preço alto. A saúde mental feminina em um estado de alerta constante Não se trata apenas de cansaço. Trata-se de um esgotamento que atravessa o corpo, a mente e a identidade. Ansiedade, irritação, sensação de insuficiência, dificuldade de concentração e um vazio difícil de explicar têm se tornado cada vez mais comuns entre mulheres...

Reflexões terapêuticas sobre mães: entre o amor, a culpa e a construção social

A idealização da maternidade


 Há dores que não se nomeiam facilmente.

Entre elas, existe uma que se instala de forma lenta, silenciosa e profundamente desestabilizadora: a dor de uma mãe que dedicou sua vida a formar um homem sensível, justo e respeitoso — e, ainda assim, vê esse mesmo filho crescer e reproduzir o desprezo, a indiferença ou a lógica machista que ela tentou, com tanto esforço, desconstruir.

Não se trata apenas de um conflito familiar.
Trata-se de uma ruptura simbólica, ética e emocional.

Essa experiência não nasce do fracasso individual, mas de algo muito mais profundo: estruturas inconscientes, dinâmicas familiares e forças culturais que atravessam o feminino — muitas vezes de forma invisível.

O sintoma que nasce no invisível: a repetição inconsciente

Na clínica, essa cena se repete com frequência: mães que, com angústia, percebem que seus filhos — já adolescentes ou adultos — manifestam comportamentos machistas sutis e persistentes.

Eles interrompem, deslegitimam, exigem cuidado sem reciprocidade, evitam responsabilidades emocionais. Pequenos gestos que, somados, revelam uma estrutura.

A dor, nesse caso, é dupla: é íntima e é política.

A psicanálise nos lembra que o inconsciente não responde à intenção, mas à experiência vivida. A criança não aprende apenas pelo discurso — ela aprende pela repetição, pela cena cotidiana, pela linguagem não dita.

E é nesse ponto que surge o abismo.

Mães que sustentam discursos igualitários muitas vezes vivem, na prática, relações onde são silenciadas, sobrecarregadas ou desvalorizadas. O filho observa. E aprende.

Aprende que a mulher cuida — mas não é ouvida.
Aprende que a mãe sustenta — mas não é respeitada. 

A culpa materna e a ilusão de controle

Diante desse cenário, uma pergunta emerge com força devastadora:

“Onde foi que eu errei?”

Essa pergunta, tão comum nos espaços terapêuticos, carrega uma armadilha.

Ela parte da ideia de que a mãe teria controle absoluto sobre a formação subjetiva do filho — o que, do ponto de vista psicanalítico, é uma ilusão.

Nenhuma mãe educa sozinha.

A subjetividade de um menino é atravessada por múltiplos agentes:

  • cultura
  • escola
  • grupos sociais
  • mídia
  • redes digitais
  • silêncio e postura das figuras paternas

O machismo não é ensinado de forma explícita, mas absorvido como atmosfera.

A culpa, nesse contexto, funciona como desvio: desloca o olhar da estrutura para o indivíduo. E, mais uma vez, responsabiliza a mulher.

A omissão paterna e a pedagogia do exemplo

Em muitos lares, há uma contradição silenciosa:

  • discurso progressista
  • prática desigual

Mães sobrecarregadas, pais emocionalmente ausentes, cuidado tratado como função feminina.

Mesmo sem palavras, o filho compreende que  o cuidado é feminino, o poder é masculino.

Essa pedagogia invisível estrutura sua forma de ver o mundo e, com o tempo, transforma-se em comportamento.

O machismo, então, não nasce como escolha consciente — mas como repetição internalizada.

O masculino ferido e a agressividade dirigida à mãe

Sob a ótica junguiana, todo sujeito carrega dimensões femininas e masculinas. Quando um menino cresce em uma cultura que reprime a sensibilidade e valoriza o domínio, ele se afasta de sua dimensão interna mais vulnerável.

Esse rompimento gera tensão, e a tensão, muitas vezes, se transforma em irritação, rejeição, agressividade emocional

A mãe, que representa vínculo, cuidado e sensibilidade, torna-se o alvo mais próximo.

Não por fraqueza — mas por proximidade.

A agressividade dirigida à mãe é, muitas vezes, um sintoma: um grito mal elaborado de um sujeito que não aprendeu a lidar com suas próprias emoções.

Maternidade, feminismo e o direito ao limite

Existe uma idealização perigosa da mãe feminista: a mulher que tudo suporta, tudo compreende e tudo transforma.

Mas essa figura não existe. A mãe não é responsável por “salvar” o filho do machismo.

Ela é responsável por educar — e, sobretudo, por não se violentar nesse processo.

Colocar limites é parte do cuidado e isso inclui dizer não, exigir respeito, interromper dinâmicas abusivas e, em casos extremos, se afastar.

Porque há uma verdade difícil, mas necessária: o amor não pode ser sustentado à custa da dignidade.

A dor que precisa ser dita

Educar um filho em uma sociedade machista é um ato de resistência, mas resistir não é aceitar tudo.

Mães também adoecem.
Também se decepcionam.
Também carregam feridas que não encontram escuta.

Romper o silêncio é o primeiro movimento de cura, não para culpar — mas para compreender.

Filhos não nascem machistas.

Mas podem se tornar.

E mães não devem carregar sozinhas o peso dessa transformação.

O machismo dentro de casa não é apenas um problema individual. É um fenômeno social, psíquico e político e só quando essa dor puder ser nomeada — sem culpa, sem vergonha, sem silenciamento — será possível, de fato, começar a transformá-la.

Se esse texto te atravessou de alguma forma, continue explorando outros conteúdos do blog. Há dores que, quando compartilhadas, deixam de ser invisíveis — e começam a se transformar.

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