Quando o agressor é “galã”: por que mulheres também validam a violência? O caso Bela Campos e Cauã Reymond em análise
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O incômodo que poucos querem nomear
Há um desconforto silencioso que atravessa debates sobre violência contra a mulher: nem sempre a invalidação vem apenas dos homens. Em muitos casos, ela ecoa — e com força — entre mulheres.
Situações envolvendo figuras públicas, como Bela Campos e Cauã Reymond, expõem uma contradição difícil de ignorar: por que denúncias feitas por mulheres são relativizadas quando o homem acusado corresponde ao ideal de beleza, status e desejo social?
Por que, em determinados contextos, o “não é não” parece perder força — ou sequer ser levado a sério?
Este texto não busca julgamento apressado, mas análise. Porque o problema não está apenas nos indivíduos. Está na estrutura — e, sobretudo, na forma como ela é reproduzida.
O peso da aparência: quando o privilégio estético interfere na moral
Vivemos em uma cultura profundamente atravessada pelo que a psicologia social chama de efeito halo — um viés cognitivo em que características positivas (como beleza) fazem com que atribuímos automaticamente outras qualidades à pessoa, como caráter, inteligência ou bondade.
Homens considerados “galãs” não são apenas admirados. São frequentemente absolvidos antes mesmo de serem questionados.
Isso produz uma distorção perigosa como: comportamentos inadequados são minimizados, atitudes invasivas são reinterpretadas como “charme” e denúncias são vistas como exagero ou oportunismo.
Enquanto isso, homens fora desse padrão estético não recebem o mesmo benefício simbólico. Ao contrário — são mais facilmente associados ao perigo, à inadequação, ao erro.
A questão aqui não é sobre indivíduos específicos. É sobre um sistema de percepção que distorce a realidade antes mesmo dela ser analisada.
Mulheres também reproduzem o machismo? Uma resposta incômoda
Sim — e isso não é contradição, é estrutura.
O patriarcado não se sustenta apenas pela imposição masculina. Ele se perpetua porque é internalizado por todos, inclusive pelas próprias mulheres.
Desde cedo, mulheres são socializadas para valorizar aprovação masculina, competindo entre si por validação, desconfiando de outras mulheres e romantizando comportamentos invasivos.
Nesse contexto, quando uma mulher denuncia, ela não enfrenta apenas o agressor — enfrenta também um sistema simbólico que a coloca sob suspeita.
É um mecanismo psíquico de defesa — mas com consequências sociais profundas.
O “não é não” seletivo: quando o discurso não vira práticaO slogan “não é não” ganhou força como marco civilizatório. Mas sua aplicação ainda é inconsistente. Na prática, o que se observa é uma seletividade inquietante:
- o “não” de algumas mulheres é respeitado
- o de outras é questionado, relativizado ou ignorado
E essa diferença não é aleatória. Ela é atravessada por fatores como aparência do homem, status social e capital simbólico (fama, poder, influência)
Quando o homem ocupa uma posição privilegiada, o “não” da mulher passa a ser negociável — como se precisasse de validação coletiva para existir.
Psicanálise e desejo: o conflito entre atração e limite
Do ponto de vista psicanalítico, há uma tensão complexa entre desejo e limite.
A cultura ensina mulheres a desejarem determinados tipos de homens — confiantes, dominantes, admirados socialmente. Esse modelo, muitas vezes, se aproxima perigosamente de comportamentos que ultrapassam fronteiras.
Quando esses limites são rompidos, surge um conflito: reconhecer a violência implicaria rever o próprio desejo e negar a violência preserva a fantasia construída.
E, quando não é questionado, pode se tornar cúmplice de estruturas que ferem.
A invalidação feminina como engrenagem da misoginia
Quando mulheres deslegitimam outras mulheres acabam reforçando a dúvida sobre denúncias, enfraquecem a confiança coletiva e fortalecem narrativas que protegem agressores.
Isso não significa culpabilizar mulheres. Significa reconhecer que a misoginia também opera de forma horizontal — entre mulheres.
A sociedade patriarcal é eficaz justamente porque consegue fazer com que suas vítimas participem, ainda que involuntariamente, da sua manutenção.
O perigo da exceção: “ele não faria isso”
Um dos argumentos mais recorrentes em casos envolvendo homens admirados é:
“Ele não parece esse tipo de pessoa.”
Mas a violência raramente se apresenta de forma caricata.Ela convive com o charme, com o sucesso, com a normalidade.
A crença de que “bons homens não fazem isso” impede o reconhecimento de que qualquer homem, em uma estrutura que o autoriza, pode ultrapassar limites.
O que isso revela sobre a sociedade — e sobre nós
A pergunta central talvez não seja por que algumas mulheres defendem homens nessas situações.
A resposta passa por uma cultura que ainda relativiza a violência masculina, uma educação emocional que não ensina limites claros e uma estrutura simbólica que valoriza homens acima de mulheres.
E, sobretudo, por uma dificuldade coletiva de sustentar a palavra feminina como verdade legítima.
Sem coerência, não há transformação
Não é possível combater o machismo de forma seletiva.
Se o “não é não” depende de quem diz — ou de quem ouve — então ele deixa de ser princípio e passa a ser conveniência.
E conveniência não transforma estruturas.
Continue a reflexão
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