Feminismo e Psicanálise: Pressão Social, Modismo ou Causa Justa?

  Quando estar forte o tempo todo deixa de ser força e vira exaustão Você já sentiu como se estivesse carregando o mundo nas costas, sem direito a pausa? Como se precisasse estar bem o tempo todo — para os filhos, para o trabalho, para a família, para o mundo — mesmo quando tudo dentro de você está desabando? Se a resposta for sim, talvez seja hora de nomear isso com mais honestidade: não é força. É sobrecarga. Vivemos em uma cultura que incentiva as mulheres a conquistarem tudo — carreira, maternidade, equilíbrio emocional, corpo ideal — mas continua delegando a elas o cuidado invisível da vida cotidiana. E esse acúmulo, silencioso e constante, cobra um preço alto. A saúde mental feminina em um estado de alerta constante Não se trata apenas de cansaço. Trata-se de um esgotamento que atravessa o corpo, a mente e a identidade. Ansiedade, irritação, sensação de insuficiência, dificuldade de concentração e um vazio difícil de explicar têm se tornado cada vez mais comuns entre mulheres...

Feminicídio: quando a violência contra a mulher revela a estrutura invisível da sociedadeo que se esconde por trás dos casos de feminicídio?o que se esconde por trás dos casos de feminicídio?

O que se esconde por trás dos casos de feminicídio?

Há crimes que chocam pela brutalidade. Outros, pela repetição. O feminicídio reúne ambos — e, ainda assim, insiste em ser interpretado como exceção. A cada novo caso, surgem explicações apressadas: “foi um surto”, “crime passional”, “não aceitava o fim”. Narrativas que, longe de esclarecer, obscurecem.

A violência contra a mulher, especialmente o feminicídio, não pode ser compreendida como uma sequência de episódios isolados. Trata-se de um fenômeno estrutural, historicamente construído e psicologicamente sustentado, que atravessa séculos, culturas e instituições.

Este artigo propõe um mergulho profundo nessa engrenagem invisível — articulando história, feminismo e psicanálise — para compreender por que esses crimes continuam acontecendo e, sobretudo, por que ainda encontram formas de serem justificadas.

A construção histórica da subjugação feminina

A ideia de que mulheres são propriedade não surgiu por acaso — ela foi construída, legitimada e naturalizada ao longo da história.

Em diferentes contextos, o corpo feminino foi associado à honra masculina e ao patrimônio familiar. Em tradições antigas, a virgindade era tratada como um “bem” negociável; sua perda, uma violação que exigia punição. Na Roma Antiga, o pater familias detinha poder absoluto sobre a vida de sua esposa e filhos — uma autoridade considerada legítima, não violenta.

Na Grécia Antiga, embora deusas ocupassem lugar simbólico relevante, as mulheres reais eram excluídas da política, da filosofia e da cidadania. Já na Idade Média, a perseguição às chamadas “bruxas” representou uma repressão sistemática à autonomia feminina: mulheres que escapavam das normas eram vistas como ameaça à ordem social.

Com a consolidação de estruturas religiosas patriarcais, a submissão feminina deixou de ser apenas prática social — tornou-se também mandato moral.

Essa continuidade histórica revela algo inquietante: a violência de gênero não é um desvio, mas um elemento estruturante de muitas sociedades.

Feminismo: a denúncia de uma estrutura invisível

O feminismo emerge justamente como ruptura dessa naturalização.

Longe de ser homogêneo, o movimento se desenvolve em ondas que ampliam progressivamente o campo de análise:

  • Primeira onda: direitos civis básicos, como voto e educação
  • Segunda onda: denúncia da violência doméstica e sexual, introduzindo o conceito de patriarcado
  • Terceira onda: interseccionalidade — gênero articulado a raça, classe e sexualidade
  • Quarta onda: ativismo digital e denúncia global do feminicídio

Um dos pontos centrais do feminismo contemporâneo é a crítica à linguagem que suaviza a violência. Expressões como “crime passional” ou “amor doentio” funcionam como dispositivos simbólicos que deslocam a responsabilidade — do agressor para a emoção, do ato para a circunstância.

Quando a violência é romantizada, ela deixa de ser reconhecida como violência.

“Crime de honra”: quando matar era justificável

A história brasileira oferece um exemplo contundente dessa lógica: a chamada “legítima defesa da honra”.

Durante décadas, homens que assassinavam suas companheiras podiam ser absolvidos sob o argumento de que agiram para proteger sua honra. Na prática, isso significava que a vida da mulher era considerada menos valiosa do que a reputação masculina.

Esse dispositivo jurídico revela uma inversão moral profunda: o agressor é humanizado e a vítima é julgada.

A mulher que rompe, que decide, que se desloca — passa a ser vista como provocadora. Já o homem violento é frequentemente descrito como alguém “levado ao limite”.

Essa narrativa não desapareceu. Ela apenas mudou de linguagem.

Psicanálise: o patriarcado dentro do sujeito

Se a história constrói estruturas, a psicanálise revela como elas se instalam no interior do sujeito.

A cultura patriarcal organiza o mundo a partir da centralidade masculina. Nesse arranjo, a mulher é frequentemente posicionada como “o outro” — uma alteridade que deve ser controlada, compreendida ou possuída.

Quando um indivíduo não consegue elaborar perdas — como o fim de um relacionamento — pode emergir uma resposta violenta. Não como impulso isolado, mas como sintoma de uma estrutura psíquica que não tolera a frustração.

A dificuldade de lidar com limites, rejeição e autonomia feminina não nasce no momento do crime. Ela é construída ao longo da vida, reforçada por discursos sociais, familiares e culturais.

A violência, nesse sentido, não é apenas ato. É linguagem.

Mídia e redes sociais: a atualização do julgamento público

A mídia tradicional e as redes sociais desempenham um papel central na manutenção dessas narrativas.

Em casos de feminicídio, é comum observar a exposição da vida íntima da vítima e o julgamento moral de suas escolhas, uma tentativa de encontrar justificativas para o agressor.

O chamado “tribunal da internet” muitas vezes reproduz — e amplifica — essas distorções. Mulheres são analisadas, dissecadas, culpabilizadas. Homens, compreendidos, contextualizados, atenuados.

Essa assimetria revela que, mesmo em ambientes contemporâneos, estruturas antigas continuam operando.

A tecnologia não transforma automaticamente a cultura — ela frequentemente a intensifica.

Casos extremos: exceção ou sintoma?

Casos como o ocorrido em Itumbiara (GO), em 2026 — em que um pai assassinou os próprios filhos para punir a esposa — não podem ser tratados como eventos inexplicáveis.

Eles são manifestações extremas de uma lógica profundamente enraizada: a ideia de que o outro pode ser destruído como forma de controle.

Nesses casos, a violência ultrapassa o indivíduo e revela o sistema que a sustenta.

Ignorar esse contexto é impedir qualquer possibilidade real de transformação.

Responsabilidade coletiva e transformação social

A violência de gênero é resultado de uma engrenagem complexa que envolve História, como séculos de institucionalização da desigualdade, Cultura enquanto narrativas  naturalizam ou relativizam a violência, Subjetividade, internalizando padrões patriarcais e a  Mídia,  com sua reprodução de estereótipos e distorções.

Não se trata apenas de punir agressores. Trata-se de transformar as condições que tornam a violência possível — e, muitas vezes, justificável.

Isso exige educação, revisão de discursos, responsabilidade institucional e, sobretudo, consciência crítica. 

Conclusão: romper o ciclo exige reconhecer a estrutura

A violência contra a mulher não é um erro do sistema. Ela é, muitas vezes, um produto dele.

Reconhecer essa realidade não é confortável — mas é necessário.

O feminismo, ao denunciar essas estruturas, não apenas expõe injustiças: ele propõe novas formas de existir, de se relacionar e de compreender o outro. A psicanálise, por sua vez, nos lembra que nenhuma transformação social é completa sem transformação subjetiva.

Enquanto a sociedade continuar a justificar, relativizar ou silenciar a violência de gênero, o feminicídio continuará a ocorrer — não como exceção, mas como sintoma.

Romper esse ciclo exige mais do que indignação. Exige consciência. 


Veja também outros artigos sobre o tema no blog

O envelhecimento como construção social: quem desaparece aos olhos da sociedade?

Feminilidade e feminismo: por que essa oposição ainda persiste?Violência simbólica: as

 formas invisíveis de silenciamento feminino


Para aprofundar essa análise, as obras Calibã e a Bruxa e Caça às Bruxas oferecem uma leitura fundamental sobre como a violência contra a mulher foi historicamente construída como instrumento de controle social.

 

Calibã e  Bruxa
As acadêmicas feministas desenvolveram um esquema interpretativo que lança bastante luz sobre duas questões históricas muito importantes: como explicar a execução de centenas de milhares de “bruxas” no começo da Era Moderna, e por que o surgimento do capitalismo coincide com essa guerra contra as mulheres. Segundo esse esquema, a caça às bruxas buscou destruir o controle que as mulheres haviam exercido sobre sua própria função reprodutiva, e preparou o terreno para o desenvolvimento de um regime patriarcal mais opressor.


Mulheres e caça às bruxas

Por que voltar a falar, hoje, sobre caça às bruxas? Em Mulheres e caça às bruxas, Silvia Federici revisita os principais temas de um trabalho anterior, Calibã e a bruxa, e nos brinda com um livro que apresenta as raízes históricas dessas perseguições, que tiveram como alvo principalmente as mulheres. Federici estrutura sua análise a partir do processo de cercamento e privatização de terras comunais e, examinando o ambiente e as motivações que produziram as primeiras acusações de bruxarias na Europa.





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A reflexão coletiva é o primeiro passo para a mudança estrutural.

Continue explorando o blog para aprofundar temas que atravessam nossa existência — com coragem, consciência e sensibilidade.


Por Pris Magalhães

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