Feminicídio: quando a violência contra a mulher revela a estrutura invisível da sociedadeo que se esconde por trás dos casos de feminicídio?o que se esconde por trás dos casos de feminicídio?
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O que se esconde por trás dos casos de feminicídio?
A violência contra a mulher, especialmente o feminicídio, não pode ser compreendida como uma sequência de episódios isolados. Trata-se de um fenômeno estrutural, historicamente construído e psicologicamente sustentado, que atravessa séculos, culturas e instituições.
Este artigo propõe um mergulho profundo nessa engrenagem invisível — articulando história, feminismo e psicanálise — para compreender por que esses crimes continuam acontecendo e, sobretudo, por que ainda encontram formas de serem justificadas.
A construção histórica da subjugação feminina
A ideia de que mulheres são propriedade não surgiu por acaso — ela foi construída, legitimada e naturalizada ao longo da história.
Em diferentes contextos, o corpo feminino foi associado à honra masculina e ao patrimônio familiar. Em tradições antigas, a virgindade era tratada como um “bem” negociável; sua perda, uma violação que exigia punição. Na Roma Antiga, o pater familias detinha poder absoluto sobre a vida de sua esposa e filhos — uma autoridade considerada legítima, não violenta.
Na Grécia Antiga, embora deusas ocupassem lugar simbólico relevante, as mulheres reais eram excluídas da política, da filosofia e da cidadania. Já na Idade Média, a perseguição às chamadas “bruxas” representou uma repressão sistemática à autonomia feminina: mulheres que escapavam das normas eram vistas como ameaça à ordem social.
Com a consolidação de estruturas religiosas patriarcais, a submissão feminina deixou de ser apenas prática social — tornou-se também mandato moral.
Essa continuidade histórica revela algo inquietante: a violência de gênero não é um desvio, mas um elemento estruturante de muitas sociedades.
Feminismo: a denúncia de uma estrutura invisível
O feminismo emerge justamente como ruptura dessa naturalização.
Longe de ser homogêneo, o movimento se desenvolve em ondas que ampliam progressivamente o campo de análise:
- Primeira onda: direitos civis básicos, como voto e educação
- Segunda onda: denúncia da violência doméstica e sexual, introduzindo o conceito de patriarcado
- Terceira onda: interseccionalidade — gênero articulado a raça, classe e sexualidade
- Quarta onda: ativismo digital e denúncia global do feminicídio
Um dos pontos centrais do feminismo contemporâneo é a crítica à linguagem que suaviza a violência. Expressões como “crime passional” ou “amor doentio” funcionam como dispositivos simbólicos que deslocam a responsabilidade — do agressor para a emoção, do ato para a circunstância.
Quando a violência é romantizada, ela deixa de ser reconhecida como violência.
“Crime de honra”: quando matar era justificável
A história brasileira oferece um exemplo contundente dessa lógica: a chamada “legítima defesa da honra”.
Durante décadas, homens que assassinavam suas companheiras podiam ser absolvidos sob o argumento de que agiram para proteger sua honra. Na prática, isso significava que a vida da mulher era considerada menos valiosa do que a reputação masculina.
Esse dispositivo jurídico revela uma inversão moral profunda: o agressor é humanizado e a vítima é julgada.
A mulher que rompe, que decide, que se desloca — passa a ser vista como provocadora. Já o homem violento é frequentemente descrito como alguém “levado ao limite”.
Essa narrativa não desapareceu. Ela apenas mudou de linguagem.
Psicanálise: o patriarcado dentro do sujeito
Se a história constrói estruturas, a psicanálise revela como elas se instalam no interior do sujeito.
A cultura patriarcal organiza o mundo a partir da centralidade masculina. Nesse arranjo, a mulher é frequentemente posicionada como “o outro” — uma alteridade que deve ser controlada, compreendida ou possuída.
Quando um indivíduo não consegue elaborar perdas — como o fim de um relacionamento — pode emergir uma resposta violenta. Não como impulso isolado, mas como sintoma de uma estrutura psíquica que não tolera a frustração.
A dificuldade de lidar com limites, rejeição e autonomia feminina não nasce no momento do crime. Ela é construída ao longo da vida, reforçada por discursos sociais, familiares e culturais.
A violência, nesse sentido, não é apenas ato. É linguagem.
Mídia e redes sociais: a atualização do julgamento público
A mídia tradicional e as redes sociais desempenham um papel central na manutenção dessas narrativas.
Em casos de feminicídio, é comum observar a exposição da vida íntima da vítima e o julgamento moral de suas escolhas, uma tentativa de encontrar justificativas para o agressor.
O chamado “tribunal da internet” muitas vezes reproduz — e amplifica — essas distorções. Mulheres são analisadas, dissecadas, culpabilizadas. Homens, compreendidos, contextualizados, atenuados.
Essa assimetria revela que, mesmo em ambientes contemporâneos, estruturas antigas continuam operando.
A tecnologia não transforma automaticamente a cultura — ela frequentemente a intensifica.
Casos extremos: exceção ou sintoma?
Casos como o ocorrido em Itumbiara (GO), em 2026 — em que um pai assassinou os próprios filhos para punir a esposa — não podem ser tratados como eventos inexplicáveis.
Eles são manifestações extremas de uma lógica profundamente enraizada: a ideia de que o outro pode ser destruído como forma de controle.
Nesses casos, a violência ultrapassa o indivíduo e revela o sistema que a sustenta.
Ignorar esse contexto é impedir qualquer possibilidade real de transformação.
Responsabilidade coletiva e transformação social
A violência de gênero é resultado de uma engrenagem complexa que envolve História, como séculos de institucionalização da desigualdade, Cultura enquanto narrativas naturalizam ou relativizam a violência, Subjetividade, internalizando padrões patriarcais e a Mídia, com sua reprodução de estereótipos e distorções.
Não se trata apenas de punir agressores. Trata-se de transformar as condições que tornam a violência possível — e, muitas vezes, justificável.
Isso exige educação, revisão de discursos, responsabilidade institucional e, sobretudo, consciência crítica.
Conclusão: romper o ciclo exige reconhecer a estrutura
A violência contra a mulher não é um erro do sistema. Ela é, muitas vezes, um produto dele.
Reconhecer essa realidade não é confortável — mas é necessário.
O feminismo, ao denunciar essas estruturas, não apenas expõe injustiças: ele propõe novas formas de existir, de se relacionar e de compreender o outro. A psicanálise, por sua vez, nos lembra que nenhuma transformação social é completa sem transformação subjetiva.
Enquanto a sociedade continuar a justificar, relativizar ou silenciar a violência de gênero, o feminicídio continuará a ocorrer — não como exceção, mas como sintoma.
Romper esse ciclo exige mais do que indignação. Exige consciência.
Veja também outros artigos sobre o tema no blog
O envelhecimento como construção social: quem desaparece aos olhos da sociedade?
Feminilidade e feminismo: por que essa oposição ainda persiste?Violência simbólica: as
formas invisíveis de silenciamento feminino
Para aprofundar essa análise, as obras Calibã e a Bruxa e Caça às Bruxas oferecem uma leitura fundamental sobre como a violência contra a mulher foi historicamente construída como instrumento de controle social.
Calibã e BruxaPor que voltar a falar, hoje, sobre caça às bruxas? Em Mulheres e caça às bruxas, Silvia Federici revisita os principais temas de um trabalho anterior, Calibã e a bruxa, e nos brinda com um livro que apresenta as raízes históricas dessas perseguições, que tiveram como alvo principalmente as mulheres. Federici estrutura sua análise a partir do processo de cercamento e privatização de terras comunais e, examinando o ambiente e as motivações que produziram as primeiras acusações de bruxarias na Europa.
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Continue explorando o blog para aprofundar temas que atravessam nossa existência — com coragem, consciência e sensibilidade.
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